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A estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, nesta segunda-feira (15), contra a Espanha, tem um palco improvisado a quase 5 mil quilômetros de distância. Lá, no Sul de Minas, a cidade homônima de 11,4 mil habitantes resolveu entrar no clima. Ruas ganharam pinturas coloridas, bandeirinhas foram espalhadas e um telão foi instalado na praça central.
A mobilização, organizada pelas sócias de um bar, atraiu dezenas de crianças que trocaram a pelada na rua por pincéis e tinta. A empresária Laís Podestá resume o espírito da coisa: “Foi lindo ver a praça cheia de famílias e crianças empenhadas”.
A brincadeira, no entanto, tem pano de fundo histórico. A coincidência dos nomes não é mero acaso. Pesquisas apontam que a cidade mineira pode ter herdado a alcunha dos chamados “pretos Cabo Verde”, população negra escravizada ou livre que predominava na região nos séculos XVIII e XIX.
O arquipélago africano era um importante entreposto do tráfico atlântico de pessoas, e muitos africanos que passavam pelas ilhas acabavam identificados genericamente como “caboverdes”. A cientista social Lidia Torres explica: “Não dá para afirmar que os escravizados presentes na região vieram de Cabo Verde. O que podemos dizer é que existe uma relação histórica entre a cidade e a população negra”.
Enquanto a bola rola na Espanha, os moradores de Cabo Verde mineira adotaram a seleção africana como segunda torcida. A primeira, claro, continua sendo o Brasil. Nas escolas, a coincidência virou tema de aula. A estudante Bárbara Mendes Dias, de 10 anos, descobriu que o português falado em Cabo Verde é diferente do brasileiro. “O deles é mais parecido com o de Portugal. Até caiu na prova”, conta.
O embaixador do país africano no Brasil, José Pedro Chantre D’Oliveira, visitou o município em 2024 e ficou impressionado: “O que mais me chamou a atenção foi a fraternidade das pessoas em torno desse nome”.
A festa, que começou com pincéis e tinta, agora ganha as arquibancadas improvisadas. A torcida é de mentirinha, mas a emoção é verdadeira. O país africano estreia, e a cidade mineira mostra que identidade se constrói com a valorização da história.
A Cabo Verde brasileira torce por seu pais, mas deixa um grande espaço no coração para o Cabo Verde africano. E, por um dia, a distância entre o Sul de Minas e a costa oeste da África parece menor.